Ameaçado de morte, deputado Jean Wyllys abandona a vida pública

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) informou nesta 5ª feira,24, que não tomará posse para o novo mandato. Reeleito pela terceira vez, com 24.295 votos, o parlamentar afirmou que desistiu da carreira política devido a frequentes ameaças de morte que tem recebido nos últimos anos.

Em entrevista ao Jornal Folha de São Paulo o congressista revelou que vive sob escolta policial desde o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, também do PSOL, partido de Wyllys, assassinada em março do ano passado.

Na entrevista o deputado diz que tomou a decisão de abandonar a vida pública devido a frequência das ameaças de morte, intensificadas durante a campanha presidencial. Ele está fora do país, de férias e revelou que não pretende voltar ao Brasil.

Jean Wyllys era o único deputado declaradamente homossexual e defendia as bandeiras LGBT no Congresso Nacional, por isso, ele se tornou um dos principais alvos das bancadas conservadoras da Casa, principalmente das bancadas evangélicas, sendo um dos principais alvos dos conservadores também nas redes sociais.

Ne entrevista Wyllys revela estar “quebrado por dentro” devido a fake News disseminadas sobre ele. Mesmo tendo vencido cinco processos por injúria, calúnia e difamação, um deles contra o agora eleito deputado Alexandre Frota que distribui “memes” atribuindo ao parlamentar elogio da pedofilia.

Em seu perfil no Twitter, Wyllys publicou um vídeo que revela as agressões sofridas. 

Trecho da entrevista à Folha de São Paulo

Quando você decidiu abrir mão do mandato?
Eu já vinha pensando em abrir mão da vida pública desde que passei a viver sob escolta, quando aconteceu a execução da Marielle. Antes disso, havia ameaças de morte contra mim e, curiosamente, não havia contra ela. Nunca achei que as ameaças de morte contra mim pudessem acontecer de fato. Então, nunca solicitei escolta.

Mas, quando rolou a execução da Marielle, tive noção da gravidade. Além dessas ameaças de morte que vêm desses grupos de sicários, de assassinos de aluguel ligados a milícias, havia uma outra possibilidade: o atentado praticado por pessoas fanáticas religiosas que acreditavam na difamação sistemática que foi feita contra mim.

Você chegou a ser agredido?
Além dos xingamentos, tinha gente que me empurrava, mesmo com a presença dos seguranças ao meu lado. E a coisa foi se agravando por causa da campanha baseada em fake news. Eu não era candidato à Presidência da República, mas a principal fake news me envolvia — o kit gay –  Foi uma fake news produzida em 2011 e atribuída a mim.

Você se firmou como um dos principais adversários de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, a ponto de ter cuspido na cara dele durante a votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. A eleição de Bolsonaro contribuiu para sua decisão de não assumir o novo mandato?

Não foi a eleição dele em si. Foi o nível de violência que aumentou após a eleição dele. Para se ter uma ideia, uma travesti teve o coração arrancado agora há pouco. E o cara [o assassino] botou uma imagem de uma santa no lugar.

Numa única semana, três casais de lésbicas foram atacados. Um deles foi executado. A violência contra LGBTs no Brasil tem crescido assustadoramente.

O [ex-presidente do Uruguai] Pepe Mujica, quando soube que eu estava ameaçado de morte, falou para mim: “Rapaz, se cuide. Os mártires não são heróis”. E é isso: eu não quero me sacrificar.

A violência contra mim foi banalizada de tal maneira que Marilia Castro Neves, desembargadora do Rio de Janeiro, sugeriu a minha execução num grupo de magistrados no Facebook. Ela disse que era a favor de uma execução profilática, mas que eu não valeria a bala que me mataria e o pano que limparia a lambança.

Eu não vou falar onde estou. Eu acho que vou até dizer que vou para Cuba [ironiza]. Eu sou professor, dou aula. Eu escrevo, tenho um livro para terminar. Eu vou recompor minha vida. Eu vou estudar, quero fazer um doutorado.

A decisão do deputado Jean Wyllis de deixar o Brasil abre espaço na Câmara dos Deputados para o vereador carioca David Miranda.

Também ativista LGBT, Miranda é casado com o jornalista Glenn Greenwald que revelou o esquema de espionagem dos EUA descoberto por Snowden, atualmente é editor do site The Intercept.

 

 

Com informações da Folha de São Paulo, UOL e Poder 360