Janot diz que Dallagnol e procuradores o pressionaram para denunciar Lula por organização criminosa

O livro “Nada Menos Que Tudo”, uma biografia do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janote escrita pelos jornalistas Guilherme Evelin e Jailton de Carvalho, lançado esta semana, com o conteúdo já vazado nas redes sociais, trás novas revelações sobre a Operação Lava Jato e a obstinada campanha dos procuradores da Operação para incriminar o ex-presidente Lula.

No capítulo 15, do livro, o ex-procurador Geral da República revela que foi procurado por Deltan Dallagnol e um grupo de procuradores, que tentou pressioná-lo para priorizar as denúncias contra o petista.

Os relatos de Rodrigo Janot confirmam as reportagens da série Vaza Jato revelada pelo The Intercept Brasil e parceiros, do verdadeiro conluio entre procuradores da Lava Jato e o então Juiz Sérgio Moro para levar Lula a prisão.

Janot revelou em seu livro que participou de reunião com procuradores da Lava Jato em que, segundo ele, houve pressão para inverter denúncias e dar prioridade ao caso Lula.

Confira a narração: “Dallagnol e os demais colegas ( Januário Paludo,Roberson Pozzobon, Antônio Carlos Welter e Júlio Carlos Motta Noronha) tinham vindo cobrar uma inversão da minha pauta de trabalho. Eles queriam que eu denunciasse imediatamente o ex-presidente Lula por organização criminosa, nem que para isso tivesse que deixar em segundo plano outras denúncias em estágio mais avançado”, esclarece.

“Naquele momento, eu tinha quatro denúncias para formular: duas contra o PMDB (uma da Câmara, outra do Senado), uma contra o PT e outra contra o PP. Pelo nosso cronograma, faríamos as denúncias na seguinte ordem: primeiro a do PP, depois a do PMDB da Câmara, em seguida a do PT e, por último, a do PMDB do Senado”, relata.

Logo no início da reunião, segundo Janot, Dallagnol teria dito:“Precisamos que você inverta a ordem das denúncias e coloque a do PT primeiro”.

O argumento dos “lavagistas” para a inversão da ordem das denúncias é de que Janot teria que denunciar o PT e Lula logo, porque, se não fosse assim, a denúncia apresentada por eles contra o ex-presidente por corrupção passiva e lavagem de dinheiro ficaria descoberta.  Janot esclarece: “pela lei, a acusação por lavagem depende de um crime antecedente, no caso, organização criminosa. Ou seja, eu teria que acusar o ex-presidente e outros políticos do PT com foro no Supremo Tribunal Federal em Brasília para dar lastro à denúncia apresentada por eles ao juiz Sergio Moro em Curitiba. Isso era o que daria a base jurídica para o crime de lavagem imputado a Lula”, simples assim.

“Sem a sua denúncia, a gente perde o crime por lavagem”, teria explicado um dos procuradores, ao ex-PGR.

Janot esclarece que na fase inicial das investigações sobre Lula e o Triplex o ministro do STF, Teori Zavasky havia atendido um pedido de compartilhamento dos documentos de um inquérito sobre organização criminosa relacionada ao PT, com a Força Tarefa. Entretanto, em decisão, o ministro deixara bem claro que eles poderiam usar os documentos, mas não poderiam tratar de organização criminosa, porque o caso já era alvo de um inquérito no STF, o qual tinha como relator o próprio Teori Zavascki e cujas investigações eram conduzidas por Janot.

O ex-PGR Continua a narração: Ora, e o que Dallagnol fez? Sem qualquer consulta prévia a mim ou à minha equipe, acusou Lula de lavar dinheiro desviado de uma organização criminosa por ele chefiada. Lula era o “grande general”, o “comandante máximo da organização criminosa”, como o procurador dizia na entrevista coletiva convocada para explicar, diante de um PowerPoint, a denúncia contra o ex-presidente. No PowerPoint, tudo convergia para Lula, que seria chefe de uma organização criminosa formada por deputados, senadores e outros políticos com foro no STF.

Power Point do procurador Deltan Dallagnol que coloca Lula no centro de esquena criminoso

Neste ponto da narração Janot menciona a famosa coletiva convocada em 15.09.2016, que virou Meme na internet “Não temos provas, mas temos convicção”. Vale ressaltar que a frase original dita por Dallagnol na coletiva foi esta: “Provas são pedaços da realidade, que geram convicção sobre um determinado fato ou hipótese. Todas essas informações e todas essas provas analisadas como num quebra-cabeça permitem formar seguramente, formar seguramente a figura de Lula no comando do esquema criminoso identificado na Lava Jato.

Voltando ao livro “Nada Menos que Tudo” Janot teria recusado o pedido pois não poderia desobedecer a uma decisão do então relator da Lava Jato no STF, o falecido ministro Teori Zavascki.

A revelação de Janot é a “cereja do bolo” das denúncias reveladas pela “Vaza Jato”, que vem demonstrando por meio dos diálogos vazados, a seletividade nas investigações com o claro objetivo de criminalizar o ex-presidente Lula. Resta saber qual será a posição do STF sobre a gravidade dessas revelações que colocam em dúvida a isenção da Justiça, neste e em outros processos?

A Defesa do ex-presidente Lula, em 13/09/2019, ingressou com um Habeas Corpus no STF, pedindo, com base nas revelações da Vaza Jato, a nulidade dos processos da Operação Lava Jato, a imediata liberdade do ex-presidente e a suspensão de todos os processos em andamento.

Esta semana O Ministério Público Federal (MPF) pediu à Justiça que conceda prisão domiciliar ao ex-presidente Lula, por ter cumprido um sexto da pena. Curiosamente, os procuradores que assinam o documento, são os algozes de Lula: Deltan Dallagnol, Roberto Pozzobon e Laura Tessler.

Em resposta aos procuradores como o título do livro de Janot “Nada Menos que Tudo” o ex-presidente Lula em 30.set.2019 recusou o pedido de progressão de regime. Lula afirma que não aceita “barganhar” os seus direitos e a sua liberdade.

Em carta, o ex-presidente disse que não aceita “barganhar” os seus direitos e sua liberdade. E faz um libelo contra os procuradores: “São eles e não eu que estão presos às mentiras que contaram ao Brasil e ao mundo. Diante das arbitrariedades cometidas pelos procuradores e por Sergio Moro, cabe agora à Suprema Corte corrigir o que está errado para que haja justiça independente e imparcial, como é devido a todo cidadão”, afirmou.

Lula foi condenado a 8 anos, 10 meses e 20 dias de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso tríplex do Guarujá (SP). Ele sempre alegou inocência.