Milagre

Tu te lembras meu irmão

da casa pequenina onde nascemos

 e da vó Amália toda de preto, contando

estórias de assombração?

Lembro-me da mãe sempre tristonha,

areando com raiva o fogão.

E me lembro-me da ramada,

de nós dois, fazendo comidinha de terra, debaixo dela.

ou transformando uma velha lata de sardinha

no caminhão do pai

que vez por outra, chegava trazendo alegria

 e presentes, só então,

eu via o riso voltar nos olhos de nossa mãe.

Tu te lembras meu irmão, de nosso curral de ossos

e das ovelhas lanudas feitas de papelão?

As bonecas de milho verde…..

As bostinhas de ovelha…….

As flores dos pessegueiros……

Tudo ganhava vida em nosso mundinho de

faz de conta…..

As caixas de fósforo são  vagões enfileirados,

ouve o apito do trem ….. piuí … piuí

a estação é logo ali,

como nossos sonhos, que desfilam rápidos demais

sem que possamos tocá-los

Das grossas frestas, encobertas com papelão

entra um vento frio que congela os ossos.

Tu te lembras da tua “campeira”[1] xadrez?

E das minhas botas com lã de ovelha e

do meu conjunto de “ban-lon”[2] azul?

Do meu quati,  do macaco que roubava as pantufas da vuela

E,  do sagui que morreu afogado no tanque?

Quando chovia, “a cruz de erva e de sal”

eram nossa proteção.

Santa Bárbara e São Gerônimo velai por nós!

O vento de “tormenta” sacudia a casa

Mãozinhas postas em prece, a gente rezava

O medo tomava conta do nosso coração infantil!

Foi então, que prometemos a Santa

“todos” nossos brinquedinhos de ossos.

Ela sorriu e a tormenta[3] parou!


[1] Casaco usado na fronteira para camperear: buscar o gado no campo

[2] Conjunto de blusas de manga curta e comprida de malha sintética – muito usada na década de 60

[3] Ventania

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