STF permite sacrifício ritual de animais em terreiros

Após decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (28/03) de que é constitucional a lei que permite o sacrifício ritual de animais em cultos de religião de matriz africana, o que se viu em artigos e posts nas redes sociais foi um verdadeiro festival de preconceito e intolerância religiosa, contra os praticantes das religiões afro-brasileiras.

O que chama atenção nas postagens é que muitos dos autores, em um país onde predomina a religião católica, mantém suas práticas religiosas como por exemplo, comer peixe durante o período da quaresma, ou são adeptos da tradição brasileira, que depois da “missa do galo” inclui na ceia, o saboroso peru de Natal.

Peter Singer e os direitos dos animais

O livro de Peter Singer, Libertação Animal, tema de meu TCC em Filosofia, defende a igualdade entre “animais humanos e não-humanos”, com base na capacidade que ambos têm de sofrer.

O livro é pródigo em relatos de sofrimentos que nós os humanos provocamos nos animais, com o uso de ratos, cães, macacos, coelhos, entre outros, em experimentos feitos por universidades, laboratórios e indústrias, tudo para o bem da ciência.

O capitulo do livro sobre animais de laboratório, registra pesquisas, a maioria na área de psicologia, onde bebês chimpanzés recém-nascidos, são afastados de suas mães, para quantificar a dor. Outros registram choques elétricos, privação de sono ou comida para comparar os níveis de medo gerados em cada um.

Os coelhos são muito utilizados para testar a toxicidade de produtos de higiene pessoal e cosmética, já os ratos e camundongos, são muito utilizados para testar novos produtos da indústria de medicamentos.

Um dos capítulos do livro de Peter Singer, deixaria corados os apreciadores daquela “suculenta” picanha, pernil ou frango assado das reuniões familiares aos domingos. Nele, o autor detalha as condições precárias de vida de animais criados para abate, como galinhas, porcos e bois, confinados que são em espaços minúsculos e abatidos com grande crueldade.

O curioso é que não se vê internautas revoltados com estas práticas cientificas, culturais e até cotidianas, eu diria.

Preconceito – Religiões Afro Brasileiras

A tradição de oferecer frutas e animais aos “deuses” é tão antiga quanto a humanidade. Temos na bíblia o relato das oferendas de Caim e Abel. Com os sacrifícios rituais, nos terreiros das religiões de tradições africanas, não é diferente, são feitas oferendas de renovação de Axé para os Orixás, com folhas, frutos e vísceras de animais. Após a oferenda, o animal abatido- como em qualquer cozinha de um lar cristão, é cozido para ser feita “a comida de santo”, que depois, como forma de repartir Axé é distribuída entre os fiéis, da comunidade de terreiro.

Se tudo é tão igual aos hábitos e costumes da maioria da população brasileira -com exceção de vegetarianos e veganos – Qual seria a razão desta polêmica toda? Racismo e preconceito.

O representante da União de Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil, o advogado Hédio Silva Júnior criticou a ação do Ministério Público estadual, em 2006 quando ingressou com a ação. “Parece que a vida de galinha de macumba vale mais do que a vida de milhares de jovens negros. É assim que coisa de preto é tratada no Brasil. A vida de preto não tem relevância nenhuma. A vida de preto não causa comoção social, não move instituições jurídicas. Mas a galinha da religião de preto, ah, essa vida tem que ser radicalmente protegida”

Chama atenção a cobertura da imprensa sobre o tema, com fotos de ritos satânicos, gatos e bodes pretos. Não vi nenhuma matéria isenta, com entrevistas com pais e mães de santo das religiões de matriz africana.

Com base em duas dessas “reportagens apelativas” publicadas pelo jornal Folha de São Paulo, o oportunista Avazz encaminhou um abaixo assinado “Contra a legalização de sacrifícios de animais em rituais religiosos. No momento em que escrevo este artigo já tem mais de 114 mil assinaturas.

Tudo bem! Eu topo assinar o abaixo assinado proposto com uma condição: Quero abaixo assinado também contra a matança de peixe na quaresma e de peru no Natal; contra o abate de boi, porco, galinha, todos os animais servidos em faustas refeições nos restaurantes de nosso país; contra as pesquisas com animais nos laboratórios e campus universitários das faculdades de veterinária e de medicina.

Agora, se esta for mais uma campanha sórdida para criminalizar e aumentar ainda mais o preconceito com as Igrejas de matriz africana, “me inclui fora desta” e este organismo internacional Avazz, que ninguém sabe muito bem a origem e finalidade que “Não venha cantar de galo em meu terreiro”.

Vale ler artigo de Luiz Nassif sobre a Avazz e veja onde você está assinando seu preconceito.http://blogln.ning.com/forum/topics/avaaz-golpe-ou-n-o