Vencendo temporais

Faíscas riscam o céu. Tempo fechado. Trovões ameaçadores

Me encolho na infância e tenho medo

Revejo a mãe benzendo tormentas

Santa Bárbara, São Gerônimo. Valei-nos!

Enquanto balbuciava uma oração incompreensível

Para meus ouvidos infantis

Com montinhos de sal e de erva mate

Desenhava duas grandes cruzes na mesa.

Fazia parte da “simpatia” gaúcha, de espantar tempestades.

Como um navio em alto mar o pequeno casebre balançava

 e eu me escondia atrás do vestido de luto fechado,

da minha Vó.

Meu refúgio, desde sempre.

E a ladanhia continuava

Senhor, tende piedade de nós

Jesus Cristo tende piedade de nós….

Jesus Cristo ouvi-nos…

Jesus Cristo atendei-nos……

Vencida pelo cansaço das rezas e benzeduras,

 A tempestade cedia, ia embora….

A mãe triunfante atribuía o milagre de domar tormentas, a força da sua fé.

Eu duvidava!

Hoje, adulta, apenas observo o temporal

E penso: Como seria bom tê-la sempre a meu lado,

Como na infância

Benzendo e espantando temporais!